Os Jogos de Escape como Ferramenta Dramática


 

 

Texto de Roberta Luchini*

 

Muito utilizados para encontros alegres com os amigos e grupos, os jogos de escape têm se tornado importantes ferramentas para a análise comportamental de equipes. Pouco se lê, ainda, sobre como tais jogos utilizam-se dos elementos dramáticos (na acepção inglesa da palavra) para captarem a atenção e o empenho e envolverem a pessoa na trama.

 

Quando falo em drama, não me refiro ao drama enquanto gênero dramático (a comédia e o drama), tão menos à ideia que associa o drama à tristeza. Acontece que o termo drama é muito disseminado na Inglaterra, mas pouco no resto do mundo. No Brasil, temos apenas a palavra “teatro”, e dela os derivados teatralização, teatral, e qualquer outro que se queira inventar ou utilizar, para representar tudo aquilo que esta arte pode trazer à vida humana como benefício. Confuso? Talvez. Mas se pensarmos em teatro aplicado a outras áreas, estaremos pensando no teatro enquanto peça teatral, com atores, roteiro, figurinos, iluminação, direção e mais ou menos coisas deste caráter. O teatro para a empresa, o teatro para a sala de aula, o teatro com o não-ator, mas sempre a performance, a apresentação como produto final.

 

A Inglaterra, pioneira em muitas das áreas criativas e artísticas que hoje se conhecem, não poderia deixar de inovar quando separa do teatro (acima descrito) seus elementos úteis a outras áreas. Daí, temos a grosso modo descrito, o drama. O drama inglês traz consigo, além do gênero dramático também já mencionado, os elementos advindos do teatro que podem (e devem) ser aplicados em outras áreas no intuito de promover o desenvolvimento humano. Falamos aqui, então, de grupos específicos que trabalharão elementos teatrais não no intuito de montar um espetáculo para uma plateia, mas no anseio de se aprimorar em algo.

 

Resumidamente, podemos distinguir o teatro e o drama através das dicotomias performance X experiência; plateia X auto espectador; público X privado; produto X processo; encenar X fazer; base na memorização X base no momento; roteiro escrito X escrevendo o roteiro. Um lado não elimina o outro, mas os focos são distintos. Enquanto quando se faz teatro busca-se o público, a plateia, a performance, o texto memorizado (ou até improvisado) e outras coisas, quando se utiliza o drama, os focos são outros. Espera-se que aquele grupo ali reunido, em conjunto e se auto assistindo durante o processo, se desenvolva, crie algo naquele momento, que muito provavelmente ali se encerrará. Eles “escrevem” o roteiro vivendo-o, e este roteiro não será encenado novamente. Ele não se tornará teatro.

 

E como tudo isto se une aos jogos de escape? Se analisarmos os jogos de escape para além de sua diversão, podemos neles encontrar elementos dramáticos que colaboram na preciosa tarefa de se descobrir mais sobre aqueles seres humanos que ali estão presentes.

E por onde tudo isso começa? Pelo objetivo final. O que se quer desenvolver ou analisar naquele grupo? Pensada a área de experiência humana ou tema, há que se pensar no contexto, que é a circunstância em que se dará o drama. Daí, vêm os papéis, as personagens que são dadas aos participantes. Eles estarão vivendo, ou, em termos mais teatrais, atuando dentro de uma moldura, que dá a eles um ponto de vista para olharem para aquela história. As pistas são os signos. São a forma de inserir tensões na trama que o grupo está envolvido. O grupo precisa, então, criar suas estratégias. Como irão se unir, se dividir, se entender para saírem daquele quarto?

 

O jogo de escape é também uma aplicação do drama. As pessoas assumem suas personagens e através das tensões que são inseridas na história (a abertura de um novo cadeado, uma dica enviada da sala central, etc.) o grupo se mantém focado, unido da forma que for, para atingir seu objetivo final que é a saída da sala. Acontece que o objetivo final daquele que preparou todo o contexto dramático pode já ter sido concretizado quando o grupo sai (ou não) da sala.  O objetivo pode ter sido analisar aquele time sob pressão, pode ter sido ver como dividem as tarefas, qual tipo de tarefa cada um se dispõe a executar, pode ser observar se há mudança na linguagem quando estão inseridos no contexto dramático dentre outras infinitas possibilidades.

 

O que poucos percebem é que, por mais que o grupo possa estar ciente de que está sendo analisado, por mais que as pessoas tentem se portar diferentemente do que são dentro da sala do jogo, elas estarão envolvidas em um contexto ficcional, e, se forem bem introduzidos a ele, por mais que tentem se portar de maneira pré-pensada, a história os envolverá de tal maneira que eles dificilmente conseguirão manter suas posturas não naturais lá dentro. A verdade é que o jogo do drama se faz ainda mais potente que o jogo da falsa atitude. O jogo do drama é mais envolvente do que o do teatro porque é vivido ali, naquele momento, e ele é real, é vivo, e traz à tona o eu como ele é. Por mais que eu tente não sê-lo.

 

Nota-se, então, que os jogos de escape podem ir muito além da pura diversão. Eles podem ser importantes ferramentas de análise comportamental. O drama neles presente é tão forte e apresenta-se tão bem em tantos de seus elementos (tema, contexto, personagens ou papéis, moldura, signos, tensões e estratégias) que o que se tem no final é o drama for learning  ou o drama para o aprendizado. Seja este aprendizado acerca de mim mesmo, de mim com o grupo e/ou do grupo enquanto equipe.

 

Roberta Luchini é Mestre em Teatro Aplicado na Educação, Comunidades e Sociedade pela Goldsmiths, University of London, pós-graduada em Arte-Educação, Pedagoga, Publicitária, Professora de Teatro, Diretora e Atriz. Iniciou a carreira de atriz aos 4 anos de idade junto aos pais Ronaldo Boschi e Joselma Luchini. Participou de mais de 35 espetáculos dentre adultos e infantis e foi indicada aos prêmios de Revelação pelo personagem Wiggins em Pocahontas e Melhor Atriz Coadjuvante por Nina em Crônica da Casa Assassinada. Iniciou carreira como educadora aos 18 anos dirigindo espetáculos para o Grupo de Teatro Faos e Centro de Pesquisas Teatrais e iniciando crianças, jovens e adultos ao teatro totalizando mais de 40 direções e turmas formadas. Em Londres, descobriu a metodologia “Mantle of the Expert” e, após inúmeras visitas e cursos de formação, tornou-se aplicadora do MoE que relaciona o ensino do currículo e a utilização da dramatização para o ensino.